Clubes brasileiros perdem medo da janela de transferência e sonham com craques europeus
20/06/2012 - 06h03
Jorge Lourenço
Do UOL, no Rio de Janeiro*
A abertura da janela internacional de transferências, nesta quarta-feira, será bem diferente daquela que os brasileiros estavam acostumados a acompanhar na década passada. Com a recessão econômica europeia, o bom momento do Brasil e o real valorizado, a tendência é a de que os principais clubes consigam manter suas grandes estrelas graças à estagnação europeia dos últimos anos.
Há 10 anos, por exemplo, o dólar atingiu a marca recorde de R$ 3,99 e muitos clubes não tiveram condições de segurar suas principais estrelas. Um dos anos mais emblemáticos nesse sentido foi o de 2004. Num período de instabilidade econômica, o futebol nacional perdeu os principais astros daquela edição do Campeonato Brasileiro ainda em dezembro ou nos primeiros meses de 2005.
Na lista das baixas daquela ocasião estão atletas como Robinho, Diego, Luís Fabiano, Deivid, Washington, Jádson, Cicinho e Fred. Como resultado, em 2006, apenas três jogadores de clubes brasileiros foram convocados para a Copa do Mundo e nenhum deles foi titular.
Hoje, a perspectiva de perdas é bem diferente. Com a solidez econômica do país, a crise no Velho Continente e o dólar na casa dos R$ 2, atletas como Neymar, Paulo Henrique Ganso, Lucas, Dedé e Leandro Damião veem seus clubes trabalhando com a possibilidade de mantê-los no país por mais algum tempo.
“Eu saí do Brasil um pouco antes desse bom momento econômico. Naquela época, o sonho de quase todo o jogador era jogar bem pelo seu clube no Brasil para, depois, ir para a Europa. A diferença salarial era gigantesca”, lembrou o volante Gilberto Silva. Hoje no Grêmio, ele trocou o Atlético-MG pelo futebol inglês em 2002, justamente quando o real bateu recorde de desvalorização. “O que a gente vê no Brasil hoje é uma economia estabilizada, o que favoreceu muito a remuneração dos jogadores. E não podemos esquecer as receitas de marketing individual que alguns atletas recebem, coisa que era bem menor dez anos atrás”.
O bom momento financeiro do país e, por consequência, dos clubes brasileiros, ajudou alguns atletas a fazerem o percurso inverso. Em 2009, mesmo com mercado na Europa, Adriano e Fred voltaram ao Brasil e se sagraram campeões brasileiros por Flamengo e Fluminense, respectivamente. Neste ano, o clube rubro-negro chegou ao ponto de desembolsar R$ 20 milhões para tirar Vagner Love do CSKA, da Rússia.
A euforia financeira, no entanto, tem seus limites. Experiente no mercado de transferências, o empresário Gilmar Rinaldi diz que os clubes brasileiros estão gastando somas enormes com jogadores enquanto deveriam aproveitar o bom momento econômico para investir em estruturas.
Essa pouca movimentação acontece pela crise econômica que atinge de forma pesada os grandes centros europeus como a Espanha e a Itália que impedem uma grande movimentação na janela, fato que já tinha acontecido ano passado. O São Paulo, que já tem um equilíbrio financeiro desde 2003, ganha com isso, porque pode manter o seu elenco, e pode ter um elenco competitivo para as próximas competições, como a Copa Sul-Americana
João Paulo de Jesus Lopes, vice-presidente de futebol do São Paulo“Acho que os clubes estão gastando verbas futuras de uma vez só. Não sei qual é o critério deles, mas os valores das transferências no Brasil estão atingindo cifras incompatíveis com a nossa realidade. A vinda do Vagner Love é um exemplo”, avaliou Rinaldi. “Se gastarem todo esse dinheiro desordenadamente e o bom momento econômico passar, tudo isso não valerá de nada”.
O fortalecimento financeiro dos clubes também contribuiu para a chegada de jogadores estrangeiros ao futebol brasileiro. Desde a crise argentina de 2002, o Brasil se firmou como o mercado com melhor remuneração na América do Sul, o que atraiu a atenção de grandes jogadores no continente. As passagens de D'Alessandro, Tévez, Valdivia e Loco Abreu por Internacional, Corinthians, Palmeiras e Botafogo, respectivamente, evidenciam esse bom momento.
A última barreira, avaliam os dirigentes, é começar a trazer jogadores europeus para o país. As negociações do holandês Seedorf com o Botafogo a as investidas de clubes brasileiros para trazer atletas como o italiano Christian Vieri, que quase acertou com o Boavista, e o francês Trezeguet, procurado pelo Flamengo no ano passado, sinalizam com essa possibilidade.
“A barreira econômica que antes impedia jogadores europeus de atuarem no Brasil certamente já foi vencida. O nível salarial daqui, para uma estrela, é quase o mesmo de lá”, explicou o diretor-executivo do Fluminense, Rodrigo Caetano. O clube das Laranjeiras, por exemplo, tem entre suas estrelas, o luso-brasileiro Deco, ex-jogador de Chelsea e Barcelona. “O que ainda impede um fluxo de atletas europeus para cá é a resistência cultural. No caso de jogadores portugueses, italiano e espanhóis, que também são de cultura latina, acho que essa barreira é um pouco menor. Podemos ver isso acontecendo no futuro”.
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