quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Galo na ponta da pena

Apaixonado pelo Atlético, artista plástico imortaliza a imagem-símbolo do time
Ivan Drummond - Estado de Minas
Publicação:03/11/2012 09:01
Esporas e bicos afiados. De aço. A imagem da mascote do Atlético é uma fortaleza só para o artista plástico Adão Pinho. Aos 81 anos, ele confessa com orgulho que foi com naturalidade que carregou do campo para as telas a paixão pelo time. “Eu tenho mania de galo desde que era pequenininho, no interior, lá em Sabinópolis. Então, só podia ser Galo”, diverte-se. O amor pelo alvinegro se firmou ali pelo fim dos anos 1940, quando foi montado um verdadeiro esquadrão pela equipe de Lourdes.
Quase quatro décadas depois, em 1985, Pinho fez uma exposição de quadros com o símbolo atleticano. A individual “Os Galos estão chegando” deu o que falar. Dos 50 quadros expostos restam menos de 20. Os outros foram vendidos.
Quando menino, segundo Adão, ele era fascinado por pássaros, especialmente pelas cores das penas. Valiam tanto as saracuras que flagrava na beira d’água aos galos e galinhas. No começo, essa fascinação servia também a outros propósitos, como o decorativo. “Eu e o meu primo Arinos ficávamos esperando para chegar o dia do Congado, uma tradição muito viva no interior. A gente depenava os galos, só para fazer as fantasias de índios.”
Ele é de uma geração que foi pela primeira vez a um campo de futebol no começo dos anos 1950. Ali se firmava um sentimento de identidade com o time e a torcida atleticana. “Foi identificação imediata. Eu era muito novo e tinha me mudado para BH”, descreve. “Antigamente, os pais mandavam a gente para cá para estudar. Lembro que, na época, o Atlético ganhava tudo. Atlético não, Galo. E me levaram para ver um jogo do torneio de inauguração do Independência. O Galo jogou com o Vasco e perdeu por 2 a 0. Mas isso não importou. Me apaixonei ali mesmo pelo time e pela torcida.”
Ele puxa na memória para citar um por um os nomes dos jogadores: “Ainda lembro da escalação: Mão de Onça, depois Kafunga, Murilo e Ramos; Mexicano, Afonso Bandejão e Carango; Braguinha, Lauro, Carlyle, Lero e Nívio.”
Não demoraria a figurar entre os que idolatravam o artilheiro do início da década de 1950, Ubaldo. “Eu estava na turma que saía carregando o Ubaldo, ou do Independência ou de Lourdes, até a Cinédia, que era um bar ali no Centro, na Praça Sete, perto do Financial.”
Ele é de um tempo em que os bairros eram uma espécie de território ditado pela preferência dos times. “Eu fui morar em Santa Tereza, perto do Horto. Ali, assim como na região de Lourdes, do Santo Antônio, era Atlético. O Gilvan, presidente do Cruzeiro, morava no Barro Preto. Ele é meu primo, mas é cruzeirense.”
A representação do Atlético, para ele, foi dali para a inspiração artística. Passou a pintar galos. “O meu Galo tem bico e esporas afiados, de aço. É como comecei a ver o meu time e como quero o meu time.” E Pinho diz que a equipe desta temporada remete a este simbolismo. Ele segue acompanhando, mas sem frequentar os estádios. “É muita confusão e falta segurança.” Ele assiste às partidas pela tevê, mas confessa que sem muita disciplina. “Não suporto acompanhar o tempo todo. Sofro muito. Coloco no canal e saio para fazer uma coisa ou outra dentro de casa e volto para ver. Mas quando está na frente, faz um gol, fica mais fácil.”
Os 50 quadros do Galo surgiram ao longo dos anos. Nascido em Sabinópolis, no Vale do Rio Doce, ele chegou aos 13 anos a Belo Horizonte. Tinha jeito para desenho e foi incentivado pela professora a desenvolver seu talento. “Tomei gosto e não parei mais”, conta. Além de ser paixão, o desenho o ajudou quando precisou de trabalho. “Venho dos departamentos de arte das agências publicitárias. Antigamente, a publicidade era resolvida na prancheta. Não é como hoje, pelo computador”, observa.
Essencial nos tempos de jornais em preto e branco, em que fotografias não eram bem impressas, desenhar foi fundamental para o desenvolvimento técnico e artístico de Pinho. “O artista da prancheta tem de ser mais criativo”, garante ele.
No começo, o mineiro usava pena e nanquim. Depois passou à aquarela e ecoline. Só mais tarde ele se dedicou à pintura a óleo. Posteriormente, recorreu à tinta acrílica por causa da secagem mais rápida.
QUADROS
A ideia da exposição com quadros cujo motivo eram o Galo, com técnicas de geometrismo e cubismo, pintados a nanquim, guache e óleo, nasceu ao observar que havia desenvolvido muitas telas com a ave estilizada.
“Eu sou tão fanático pelo Galo e pelos galos, que fiz um Galo do Cruzeiro, azul, um do América, verde e branco, e um do Villa Nova, vermelho e branco. O resto era de todas as formas e tipos, passando pelo português, mas a maioria lembrando o time. Passei a ser chamado de Galo, por isso digo que meu nome é Galo”, faz questão de afirmar.
Em um dos trabalhos, destaque para um desenho de Cristo com um Galo no lugar do coração. “É assim que o atleticano pensa: sempre com Deus, mas o Galo no coração.”

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